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Klimp está trancado há nove meses num bunker, sem saber porquê. Suspeita que possa estar a ser observado e receia ser vítima de uma experiência de psicologia social. Ou de puro sadismo.

Está só mas não está calado. Fala para uma câmara, para as testemunhas que presume ter, para os seus amores, ou antigos amores.

Klimp fala dos seus medos, passados e presentes. Gostava de sair daquele quarto, daquela prisão, daquele bunker — mas não pode. Tem razões para acreditar que está ali fechado por culpa ou vontade de alguém que o amava. E tem medo, tem muitos medos: do escuro, de estar sozinho, de que tudo à sua volta seja mentira, de querer adormecer e não conseguir, de morrer sem ter a certeza se alguma vez foi amado, ou se alguma vez fez alguma coisa realmente útil…

Klimp grava o seu testemunho em pequenas partes soltas. Ensaia repetidamente antes de gravar cada parte, e revê a gravação uma vez atrás da outra. Klimp revê partes que já tinha gravado, e grava partes que nunca revê. É o seu último testamento.

«E se eu ficasse cego agora? Se ficasse cego e não conseguisse ver o que já gravei? E se eu ficasse mudo? […] E se eu tivesse perdido a cabeça? Ou simplesmente perdesse o juízo e não conseguisse ter organizado este depoimento como organizei? Ou chegasse aqui e não conseguisse acabar?»

Ao longo de nove meses, Klimp teve tempo para questionar o seu sistema de valores, as suas relações, as suas crenças.

E, agora, tem medo de dizer tudo. E de deixar alguma coisa por dizer. Tem medo de ser mal interpretado, e de estar a mentir.

Dava tudo para sair dali.

E acaba por dizer tudo o que tinha a dizer. Dá por concluída a gravação. Continua com medo de se ter esquecido de dizer alguma coisa, mas tem a certeza de que não pode faltar nada de importante.

Klimp dava tudo para conquistar a liberdade. Ou para morrer já.

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Texto original : Luis Miguel Viterbo

Encenação: Rute Rocha

Assistência de encenação: Sérgio Ribeiro

Com: Hugo Sovelas

Espaço cénico e figurinos: Paulo Mosqueteiro

Desenho de luz : José Álvaro Correia

Vídeo: João Correia

Apoio de movimento: António Tavares

Design gráfico: João Concha

Operação Técnica: Sara Garrinhas

Coprodução:  Cinema Teatro Joaquim de Almeida/C.M.Montijo

Projeto em colaboração com:Audinova, Varazim Teatro, Canal Q, Bostik, Gonçalves & Teixeira e Teatro da Comuna

Estrutura financiada por: Ministério da Cultura/Dgartes

12ª Produção GQL

Estreado a 19 de Março de 2011 no Cinema Teatro Joaquim de Almeida no Montijo

Apresentações na Póvoa do Varzim| Auditório Municipal da Póvoa do Varzim e Lisboa| Teatro da Comuna

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